Infância Urgente

domingo, 1 de novembro de 2009

MP investiga casos de maus-tratos a menores

Ma­ria Jo­sé Sá

So­men­te nes­se ano, o Mi­nis­té­rio Pú­bli­co Es­ta­du­al já con­ta­bi­li­za 120 de­nún­cias de maus tra­tos so­fri­dos por cri­an­ças e ado­les­cen­tes em si­tu­a­ção de rua, por ins­ti­tu­i­ções que de­ve­ri­am cu­i­dar de­les. De acor­do com o pro­mo­tor de jus­ti­ça Eve­ral­do Se­bas­ti­ão de Sou­za, co­or­de­na­dor do Cen­tro de Apoio Ope­ra­ci­o­nal (CAO) da In­fân­cia e Ju­ven­tu­de, em Go­i­â­nia exis­tem 18 abri­gos de me­no­res, con­ve­nia­dos com a Pre­fei­tu­ra. Em to­do o Es­ta­do, são 70 abri­gos. Des­se to­tal, 80% pos­su­em ir­re­gu­la­ri­da­des, sen­do que 15 são os cam­pe­ões de re­cla­ma­ções.
As quei­xas, for­ma­li­za­das por Ongs e pes­so­as anô­ni­mas, vão des­de cas­ti­gos mo­de­ra­dos até agres­sões fí­si­cas. O MP es­tá in­ves­ti­gan­do to­das as de­nún­cias e abrin­do pro­ces­so in­di­vi­dual em no­me de ca­da ví­ti­ma. As ins­ti­tu­i­ções acu­sa­das po­de­rão até ser fe­cha­das, de­pen­den­do da gra­vi­da­de da in­fra­ção. O pro­mo­tor la­men­ta o fa­to das de­nún­cias apu­ra­das até ago­ra se­rem ver­da­dei­ras. "In­fe­liz­men­te, es­ta­mos com­pro­van­do que as agres­sões re­la­ta­das pe­las cri­an­ças e ado­les­cen­tes cor­res­pon­dem à ver­da­de".
Eve­ral­do Se­bas­ti­ão con­ta que ele mes­mo fi­cou cho­ca­do quan­do fez uma vi­si­ta de sur­pre­sa a um dos abri­gos de­nun­ci­a­dos, em Go­i­â­nia. "Che­guei sem avi­sar e fui en­tran­do, lo­go olhei pe­la ja­ne­la de uma sa­la e lá es­ta­vam vá­rios me­ni­nos de jo­e­lhos. Ao ser ques­ti­o­na­da, a di­re­to­ra da ins­ti­tu­i­ção afir­mou que es­sa é uma prá­ti­ca co­mum pa­ra pu­nir os de­so­be­dien­tes, que che­gam a fi­car mais de ho­ra ajo­e­lha­dos."

"Prefiro passar frio e fome na rua"

Na co­me­mo­ra­ção dos 76 anos de Go­i­â­nia, au­to­ri­da­des fa­zi­am dis­cur­sos in­fla­ma­dos, no pa­lan­que mon­ta­do na Ave­ni­da 24 de Ou­tu­bro, fri­san­do que na be­la ca­pi­tal não exis­tem pro­ble­mas so­ci­ais. A um quar­tei­rão do pa­lan­que, nu­ma es­qui­na da Rua Ben­ja­min Cons­tant, en­con­tra­mos um me­ni­no dor­min­do so­bre um pa­pe­lão, al­heio ao mo­vi­men­to.
Acor­da­mos L.M.S., 16 anos, que não co­mia na­da há dois di­as e, em tro­ca de um lan­che, nos con­tou sua his­tó­ria. O jo­vem re­la­tou que mo­ra­va no se­tor Ga­ra­ve­lo e, pa­ra fu­gir das agres­sões da mãe e do pa­dras­to, ele saía da es­co­la e ia pa­ra a rua, até que há dois anos rom­peu de vez o vín­cu­lo com a fa­mí­lia e mu­dou-se de­fi­ni­ti­va­men­te pa­ra a rua, on­de se vi­ciou em crack.
L.M. afir­ma que em Go­i­â­nia há mais de 100 me­ni­nos e me­ni­nas em si­tu­a­ção de rua, per­am­bu­lan­do pe­los bair­ros da pe­ri­fe­ria, pros­ti­tu­in­do-se, tra­ba­lhan­do pa­ra tra­fi­can­tes e pra­ti­can­do fur­tos e rou­bos pa­ra sus­ten­tar o ví­cio do crack. Ele ex­pli­ca que a po­lí­cia os ex­pul­sou do cen­tro da ci­da­de. En­tão, eles "se mu­da­ram" pa­ra a pe­ri­fe­ria, on­de vi­vem os tra­fi­can­tes de dro­gas, pa­ra quem "fa­zem ser­vi­ço de en­tre­ga de mer­ca­do­ria", em tro­ca de pe­dras de crack. Quem acre­di­ta que em Go­i­â­nia não tem cri­an­ças em si­tu­a­ção de rua, de­ve abrir os olhos e dar uma vol­ta pe­los ter­mi­nais de ôni­bus, ime­di­a­ções do Der­go, Ter­mi­nal Pa­dre Pe­lá­gio, bair­ro Ca­pu­a­va, Cam­pi­nas e ime­di­a­ções.
Fa­min­to, zon­zo pe­lo efei­to das dro­gas, mal­tra­ta­do, su­jo, den­tes es­tra­ga­dos e com mui­to frio. Foi as­sim que en­con­tra­mos L.M., e é as­sim que ele diz que pre­fe­re fi­car, a ter que mo­rar num des­ses abri­gos pa­ra me­ni­nos em si­tu­a­ção de rua. "Já me le­va­ram pa­ra um abri­go des­se. Até pen­sei que não ia mais so­frer. Mas, lá um edu­ca­dor ba­tia na gen­te. En­tão eu e mais dois ir­mãos de 9 e 7 anos, que tam­bém apa­nha­ram, fu­gi­mos na mes­ma noi­te."
O ado­les­cen­te con­ti­nua seu de­sa­ba­fo: "Quan­do o edu­ca­dor me ba­teu, sen­ti mui­to ódio den­tro de mim. Na mi­nha ca­sa, mi­nha mãe e meu pa­dras­to me agre­di­am; na ins­ti­tu­i­ção, o edu­ca­dor me ba­teu; na rua, as pes­so­as me hu­mi­lham e a po­lí­cia ba­te. Mas na rua, eu sou li­vre e fu­jo de um lu­gar pa­ra ou­tro. Por is­so, pre­fi­ro pas­sar frio e fo­me na rua. Tia, me dá um cho­co­la­te?"


Cerca de 100 adolescentes vive em cadeias públicas

O pro­mo­tor Eve­ral­do Sou­za diz que falta dignidade para as crianças."Cri­an­ça tem que ser tra­ta­da com dig­ni­da­de. Es­se é um di­rei­to ga­ran­ti­do pe­lo ar­ti­go 227 da Cons­ti­tu­i­ção Fe­de­ral. Es­sas cri­an­ças e ado­les­cen­tes em si­tu­a­ção de rua são ví­ti­mas da ne­gli­gên­cia da fa­mí­lia, da ex­plo­ra­ção, fal­ta de cui­da­dos e aban­do­no.”
Ele cita ainda um problema grave e muitas vezes não divulgado. “Em to­do o Es­ta­do, te­mos mais de 100 ado­les­cen­tes em ca­deia pú­bli­ca jun­to com adul­tos, por fal­ta de ins­ti­tu­i­ções ade­qua­das pa­ra cu­i­dar de­les. Ge­ral­men­te o fim des­ses me­ni­nos é a mor­te, den­tro dos pró­prios pre­sí­di­os. E o po­der pú­bli­co ain­da tem co­ra­gem de ir aos mei­os de co­mu­ni­ca­ção di­zer que o pro­ble­ma não exis­te. Is­so é in­con­ce­bí­vel !", in­dig­na-se o pro­mo­tor.
A pre­si­den­te da As­so­cia­ção dos Con­se­lhei­ros Tu­te­la­res do Es­ta­do de Go­i­ás, Ana Lí­dia Fleu­ry, res­sal­ta que há em Go­i­â­nia mais de cem cri­an­ças e ado­les­cen­tes em si­tu­a­ção de rua, por di­ver­sos mo­ti­vos: vi­o­lên­cia do­més­ti­ca, fa­mí­lia com si­tu­a­ção só­cio-eco­nô­mi­ca pre­cá­ria, eva­são es­co­lar, de­pen­dên­cia quí­mi­ca, en­tre ou­tros.
Ana Lí­dia, que é psi­có­lo­ga e mes­tran­da em Ser­vi­ço So­ci­al, en­fa­ti­za que "es­sas cri­an­ças e ado­les­cen­tes ge­ral­men­te têm mui­ta re­sis­tên­cia em acei­tar al­gum ti­po de apro­xi­ma­ção, mes­mo que se­ja ofe­re­cen­do aju­da. É ne­ces­sá­rio ter co­nhe­ci­men­to téc­ni­co e sen­si­bi­li­da­de hu­ma­na pa­ra abor­dar e aco­lher es­sa po­pu­la­ção que, pe­lo fa­to de ser cons­tan­te al­vo de vi­o­lên­cia, cos­tu­ma não con­fi­ar em nin­guém."
O pro­mo­tor Eve­ral­do Sou­za diz que a si­tu­a­ção dos abri­gos é com­pli­ca­da, e por en­quan­to pre­fe­re não re­ve­lar no­mes: "Na mai­o­ria dos ca­sos, nos de­pa­ra­mos com gru­pos re­li­gi­o­sos bem in­ten­ci­o­na­dos. Na con­cep­ção de­les, es­tão pra­ti­can­do o bem. Po­rém, aca­bam pi­o­ran­do a si­tu­a­ção por fal­ta de pre­pa­ro pa­ra li­dar com cri­an­ças e ado­les­cen­tes agres­si­vos e com­ple­ta­men­te de­ses­tru­tu­ra­dos emo­cio­nal­men­te. Es­ses jo­vens per­de­ram o vín­cu­lo com a fa­mí­lia, nas ru­as são per­se­gui­dos pe­la po­lí­cia, são es­cra­vi­za­dos pe­los tra­fi­can­tes, con­so­mem crack, pra­ti­cam de­li­tos gra­ves. São ví­ti­mas de abu­sos se­xu­ais e so­frem to­do ti­po de hu­mi­lha­ção e pre­con­cei­to por par­te da so­ci­e­da­de. Co­mo uma ins­ti­tu­i­ção quer "con­ser­tar" um in­di­ví­duo des­ses agre­din­do-o mais? Hu­mi­lhan­do-o mais? Obri­gan­do-o a se­guir uma re­li­gi­ão, à for­ça?", ques­ti­o­na.
Se­gun­do o MP, a pre­fei­tu­ra de Go­i­â­nia não pos­sui uma po­lí­ti­ca de aten­di­men­to às cri­an­ças e ado­les­cen­tes em si­tu­a­ção de rua.

Fonte: Hoje

Um comentário:

Zeze disse...

Fiquei lisongeada quando uma amiga, que mora em Santa Catarina, me mandou email contando que viu essa matéria nesse blog.
Tenho feito uma série denunciando o descaso da Prefeitura de Goiânia com a assistência social. É muito difícil, mas temos conseguido "incomodar".
Parabéns pelo seu trabalho, vamos nos juntando, para que nosso grito contra o descaso das autoridades brasileiras fique cada vez mais forte.
Obrigada
Maria José Sá
http://mariajosesa.blogspot.com
http://my.opera.com/mariazeze/blog